Rezar quando não se sente nada
Portal de Orações • 31 de agosto de 2026
Chega sempre a altura em que a oração deixa de dar consolação nenhuma. A tradição tem um nome para isso, e a resposta que dá não é «esforça-te mais».
A quem reza com alguma regularidade acontece sempre, mais cedo ou mais tarde: chega uma altura em que aquilo deixa de dar nada. As mesmas palavras, o mesmo tempo, o mesmo sítio — e nenhuma consolação, nenhum sentimento, nenhuma sensação de estar a falar com alguém.
O primeiro instinto é concluir que se perdeu a fé, ou que se está a fazer mal.
## A tradição tem um nome para isto
Chama-lhe aridez, e trata-a como uma fase normal, não como um sintoma. Aparece nos autores espirituais com uma frequência que devia sossegar quem passa por ela: São João da Cruz escreveu um livro inteiro sobre o assunto, e Santa Teresa de Ávila descreve anos seguidos em que a oração lhe custava a ponto de olhar para a ampulheta à espera que acabasse.
Duas pessoas que ninguém acusaria de falta de fé.
## O que muda quando o sentimento vai embora
A ideia de que rezar bem é sentir alguma coisa é recente, e é uma má vara de medir. Se a oração fosse boa na proporção da emoção que dá, os dias em que estamos bem-dispostos seriam os dias em que rezamos melhor — o que é absurdo.
A aridez tira uma coisa e mostra outra. Tira o prazer de rezar. E mostra se rezamos por causa do prazer ou por outra razão qualquer.
Quem continua a aparecer quando já não recebe nada em troca está a fazer, provavelmente, a coisa mais parecida com amor que existe na oração.
## O que fazer, na prática
Três conselhos que a tradição repete, e que são todos deliberadamente pouco heróicos.
**Não aumentar.** A tentação é rezar mais para compensar. Costuma acabar em desistir por completo umas semanas depois. Manter o mesmo tempo, nem mais nem menos.
**Encurtar para o que se aguenta.** Se meia hora se tornou impossível, dez minutos feitos todos os dias valem mais do que meia hora feita uma vez por mês com remorso pelo meio.
**Agarrar-se ao texto.** É exactamente aqui que as fórmulas antigas servem para alguma coisa. Quando não há nada de dentro para dizer, diz-se o que outros deixaram escrito. O Pai-Nosso não precisa que estejamos inspirados.
## Uma nota que não é espiritual
Vale a pena separar duas coisas que se confundem com facilidade.
Aridez na oração é uma coisa. Não conseguir sentir nada por nada, não dormir, não sair da cama, não ver sentido em nada — isso é outra, e não se trata com conselhos espirituais.
Se é esse o caso, o passo seguinte não é rezar mais. É falar com o médico. As duas coisas não competem uma com a outra, e confundi-las já fez muito mal a muita gente.
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