Porquê rezar sempre as mesmas palavras
Portal de Orações • 31 de agosto de 2026
A objecção é antiga: repetir uma fórmula decorada não será o contrário de rezar? A resposta tem menos que ver com sinceridade do que com os dias maus.
A objecção é antiga e razoável: se a oração é um encontro, repetir uma fórmula decorada não será exactamente o contrário disso? Melhor seria falar com as nossas palavras, no momento, como sai.
Às vezes é. No dia em que há alguma coisa a dizer, diz-se, e nenhum texto substitui isso.
O problema são os outros dias.
## Quando não há palavras
Há dias em que não há nada a dizer. Não por falta de fé — por cansaço, por distracção, por estar tudo igual. E há dias piores, em que há demasiado a dizer e nada que se consiga formular: à porta de um hospital, depois de um telefonema, na noite em que se percebe que alguma coisa acabou.
É para esses dias que existem as orações feitas.
Uma fórmula que se sabe de cor não exige que se esteja inspirado. Começa-se, e ela leva-nos até ao fim. Quem já rezou um Pai-Nosso num corredor de urgências sabe que aquilo não é recitação: é a única frase que ainda se consegue dizer inteira.
## O texto é mais velho do que o nosso humor
Há uma segunda razão, menos sentimental. As palavras que dizemos de improviso são as do nosso estado de espírito nesse minuto. As palavras de uma oração antiga foram-nos dadas por outros, e dizem coisas que hoje talvez não escolhêssemos dizer.
O Pai-Nosso, por exemplo, obriga a pedir perdão *na medida em que* perdoamos. Ninguém, deixado à sua vontade, escreveria essa cláusula sobre si mesmo. Está lá, e todos os dias volta.
Rezar um texto que não escolhemos é aceitar ser corrigido por ele.
## As duas coisas, não uma
Nada disto é um argumento contra a oração espontânea. É um argumento contra escolher.
O costume antigo é o de quem tem uma fórmula para começar e continua por sua conta quando o silêncio se abre. A fórmula é o degrau, não o tecto. Quem só improvisa fica refém dos dias em que lhe apetece; quem só recita arrisca-se a nunca dizer nada de seu.
Começar pelo texto e ver o que acontece a seguir costuma bastar.
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