De onde vêm as orações que rezamos
Portal de Orações • 31 de agosto de 2026
Um salmo tem três mil anos, o Salve-Rainha tem mil, e a oração da paz de São Francisco não é de São Francisco. Saber a origem muda a forma de rezar.
Quase todas as orações que se rezam em português têm uma história, e quase nunca é a que se supõe. Vale a pena conhecê-la — não por curiosidade erudita, mas porque saber quem disse aquilo, e em que circunstância, muda a maneira de o dizer.
## Três camadas
As orações mais rezadas vêm, grosso modo, de três sítios.
**Da Escritura.** O Pai-Nosso está no Evangelho segundo São Mateus, no capítulo 6, como resposta directa à pergunta sobre como se deve rezar. O Magnificat é o cântico de Maria em São Lucas. Os salmos são mais antigos do que tudo o resto: quando se reza o «O Senhor é meu pastor», repete-se um texto com cerca de três mil anos, que Jesus também rezou.
**Da liturgia.** O Glória ao Pai é uma doxologia dos primeiros séculos. A Salve-Rainha é uma antífona do século XI, atribuída a Hermano de Reichenau, um monge que nasceu com deficiências graves e passou a vida num mosteiro na ilha de Reichenau. A Alma de Cristo é do século XIV — dois séculos antes de Santo Inácio a ter posto no princípio dos seus Exercícios, o que não impediu meio mundo de lha atribuir.
**De autores concretos.** O «Nada te perturbe» foi encontrado no breviário de Santa Teresa de Ávila. A oração a São Miguel Arcanjo foi escrita pelo Papa Leão XIII em 1886, e é portanto mais recente do que o comboio a vapor.
## O caso da oração da paz
O exemplo mais instrutivo é o do «Senhor, fazei de mim um instrumento da vossa paz».
Toda a gente lhe chama a oração de São Francisco de Assis. Não é dele. Apareceu pela primeira vez em 1912, numa revista devocional francesa chamada *La Clochette*, sem assinatura. Ficou associada a São Francisco quando começou a circular impressa no verso de uma estampa com a imagem dele — e a associação pegou.
Isto não a torna pior. Torna-a outra coisa: um texto do século XX, escrito por alguém cujo nome se perdeu, que soube dizer em voz franciscana o que precisava de ser dito. A oração continua boa. Só não é medieval.
## Porque é que isto está em cada página deste site
É a razão de cada oração aqui publicada trazer a fonte e, quando se conhece, a atribuição.
Uma colectânea sem proveniência é um monte de textos copiados de outro sítio. Com proveniência, é possível ver o que se está a rezar: se é uma frase da Escritura, se é uma fórmula que atravessou mil anos de mosteiros, ou se é uma composição recente que ainda está a ganhar o seu lugar.
E quando não sabemos, dizemo-lo. «Atribuída a» não é o mesmo que «de», e a diferença entre as duas é o que separa uma tradição de uma lenda.
Comentários (0)
Ainda não há comentários neste artigo.